quando se diverte, não pensa
quando pensa, não se diverte
domingo, 20 de julho de 2008
domingo, 29 de junho de 2008
A incrível não-sei-o-que
Uma fresta na janela estava aberta. Por ela entrava o sol amarelo de um dia recém amanhecido, o ar gélido de uma cidade desacordada e os micróbios, bactérias e tudo aquilo que corrompe o ar que respiramos. Soraide estava deitada num sofá vermelho vinho, bastante velho e desbotado, que se encontrava na sala de estar. Ela havia ganhado o sofá em seu casamento, como presente da querida e amada sogra. O casamento não deu certo e o maldito levou de tudo mais precioso, exceto o sofá cor vinho de péssimo gosto. Por baixo de sua cabeça pendia um travesseiro branco e gordo, seguido por uma colcha amarela que lhe cobria até a ponta do nariz.
Soraide respirava profundamente, vagarosamente, fazendo seu abdômen dançar num ritmo compassado. Uma pelagem comprida e marrom escorria do topo de sua cabeça. Suas pálpebras cobriam a branquidão de olhos adormecidos. O restante do corpo todo estava imóvel, intocável, desligado. A mulher estava longe, em outro plano, num jamais conhecido por qualquer um em sã consciência. Quem a pilotava era agora a subconsciência, que deixava seus desejos e pensamentos ocultos expostos, através de metáforas muito bem boladas. Seu cérebro provocava, algumas vezes, movimentos inesperados em parte do corpo qualquer, como por exemplo o dedão do pé.
Alguma coisa a fez voltar, voltar para o mundo que conhecemos. Sua consciência adentrou em sua mente, como um velho maroto que entra em casa depois de longas férias no caribe. Num longo suspiro e gemido, moveu-se. Ergueu os braços, alongou-se, ainda de olhos fechados. Cada músculo foi esticado, quase provocando um estalo imaginário. Seu pescoço de fato estalou, assim como seus dedos, embora estes tenham sofrido provocação. Finalmente abriu os olhos e encarou o teto branco de seu apartamento. De imediato, começou a pensar, como se o fato de acordar virasse o botão on/off de sua consciência para o modo on. Pensar no que deveria fazer hoje, em como o dia seria cansativo, no cara que havia conhecido na noite passada.
Sentou-se no sofá, olhou para o lado direito e deparou-se consigo mesma. Defronte ao sofá encontrava-se um velho rack, que também tinha sido presente de casamento e que também tinha sido deixado pelo maldito ex-marido. Na porta do meio, cujo interior não nos importa no momento, estava um espelho. Espelho meio arranhado, meio sujo, mas que continuava com uma perfeita reflexão do objeto diante de si, que atualmente era Soraide.
Encarou seus próprios olhos e a imagem à sua frente. Percebeu, pela primeira vez na vida, como era estranha. Era bizarra. Aquelas duas bolotinhas brilhantes que tudo podiam ver e dois resquícios de pêlo por cima destas. Um buraco rosado com coisas cortantes e brancas por dentro. Uma forma esquisita modelada por cartilagem com duas fendas que sugavam ar. Duas partes que surgiam de um longo e vertical tronco e resultavam em artifícios com cinco outras partes, que por sua vez eram utilizadas como pegadores. O tronco dividido, que por fim terminava em formas achatadas que a punham de pé. Sem falar do interior. Sistemas, canos, líquidos, texturas, formatos. Tudo isso que punha algo incrível em funcionamento, um mecanismo puxando o outro, ordenados por uma central de comando bem no topo.
Era um ET, uma árvore, um robô, um projeto. Repentinamente, sentiu-se sensível. Ela, Soraide, era incrível.
Soraide respirava profundamente, vagarosamente, fazendo seu abdômen dançar num ritmo compassado. Uma pelagem comprida e marrom escorria do topo de sua cabeça. Suas pálpebras cobriam a branquidão de olhos adormecidos. O restante do corpo todo estava imóvel, intocável, desligado. A mulher estava longe, em outro plano, num jamais conhecido por qualquer um em sã consciência. Quem a pilotava era agora a subconsciência, que deixava seus desejos e pensamentos ocultos expostos, através de metáforas muito bem boladas. Seu cérebro provocava, algumas vezes, movimentos inesperados em parte do corpo qualquer, como por exemplo o dedão do pé.
Alguma coisa a fez voltar, voltar para o mundo que conhecemos. Sua consciência adentrou em sua mente, como um velho maroto que entra em casa depois de longas férias no caribe. Num longo suspiro e gemido, moveu-se. Ergueu os braços, alongou-se, ainda de olhos fechados. Cada músculo foi esticado, quase provocando um estalo imaginário. Seu pescoço de fato estalou, assim como seus dedos, embora estes tenham sofrido provocação. Finalmente abriu os olhos e encarou o teto branco de seu apartamento. De imediato, começou a pensar, como se o fato de acordar virasse o botão on/off de sua consciência para o modo on. Pensar no que deveria fazer hoje, em como o dia seria cansativo, no cara que havia conhecido na noite passada.
Sentou-se no sofá, olhou para o lado direito e deparou-se consigo mesma. Defronte ao sofá encontrava-se um velho rack, que também tinha sido presente de casamento e que também tinha sido deixado pelo maldito ex-marido. Na porta do meio, cujo interior não nos importa no momento, estava um espelho. Espelho meio arranhado, meio sujo, mas que continuava com uma perfeita reflexão do objeto diante de si, que atualmente era Soraide.
Encarou seus próprios olhos e a imagem à sua frente. Percebeu, pela primeira vez na vida, como era estranha. Era bizarra. Aquelas duas bolotinhas brilhantes que tudo podiam ver e dois resquícios de pêlo por cima destas. Um buraco rosado com coisas cortantes e brancas por dentro. Uma forma esquisita modelada por cartilagem com duas fendas que sugavam ar. Duas partes que surgiam de um longo e vertical tronco e resultavam em artifícios com cinco outras partes, que por sua vez eram utilizadas como pegadores. O tronco dividido, que por fim terminava em formas achatadas que a punham de pé. Sem falar do interior. Sistemas, canos, líquidos, texturas, formatos. Tudo isso que punha algo incrível em funcionamento, um mecanismo puxando o outro, ordenados por uma central de comando bem no topo.
Era um ET, uma árvore, um robô, um projeto. Repentinamente, sentiu-se sensível. Ela, Soraide, era incrível.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
O Teatro da Vida apresenta: Comédia e Tragédia, as Contradições Siamesas do Conceito Humano
[Entram a Comédia e a Tragédia, cada qual comportando-se de acordo com sua personalidade já evidente. Comédia fazendo estripulias e sorrindo de forma marcante e exagerada, mexendo com todos os espectadores da platéia. Tragédia bastante emburrada, de cara fechada, lançando um olhar desconfiado para as pessoas que as cercam. Comédia inicia o diálogo].
Comédia: Ó, mas que lindeza! Os pássaros estão a cantar, o Sol está a raiar, as pessoas estão a sorrir, as formigas estão a trabalhar! Ó mas como é bom mover-me, pular, me sentir viva! Que beleza é jogar um sorriso ao amigo que precisa ou ao inimigo que não precisa!
Tragédia: Não sei como pode ser tão ingênua, minha cara. Não sei como consegue sorrir quando crianças estão a morrer, o mundo está a ferver, o fim está a surgir. Com essa preguiça, com essa fome, com esse cansaço eterno, essa rotina que mata, esses dias que nunca acabam, que vão sendo vividos sem começo, nem meio e nem fim.
Comédia: Oras, mas é claro! A melhor solução é não aderir! Que não deixemos as coisas ruins de nós conta tomar, para que vejamos rabugentos em todo lugar! O brilho, a luz, a paz, os sentimentos lindos e tudo que há de mágico prevalece! E ocupa um lugar tão mais especial no coração e no olhar das pessoas que me faz querer gritar de alegria!
Tragédia: Não, não. Frívolas, maquiavélicas e egocêntricas são as pessoas. O superego e o id, juntos, superam o ego sempre que possível. Mais alto fala o autobenefício. Porque não comprar um lindo carro se eu puder? De pouco importa a eles o sofrimento do outro desde que não afete a si mesmo.
Comédia: Como é possível não ver! Relacionamento social qualquer não é mais importante do que a pureza que faz o planeta girar! Do que o caminho de bem e de paz que devemos seguir! Do que o ar puro, o céu azul, a vontade de abraçar o mundo e cuidar dele! O maior, o infinito, o algo mais que temos!
Tragédia: O coração não vê aquilo que a mente não quer que ele veja. A mente do ser humano para o dinheiro está voltada. Capazes de qualquer coisa eles são. Até mesmo de uns aos outros manipular, brincar de uma brincadeira feia chamada sociedade, que engana, que controla, que faz do corpo um robô.
Comédia: O corpo é uma maquina impressionante que a ninguém obedece! Somente aos sentimentos mais profundos da alma transparente e aos pensamentos mais sinceros de um cérebro maravilhoso! É extraordinariamente fascinante, o ser humano e tudo que ele cerca! Aprender sempre coisas novas, ó, mas que lindeza!
Tragédia: Os pensamentos mais sinceros não existem. O que são programados pra pensar, eles pensam. Seus conceitos formados são a partir de uma série de convenções por eles utilizadas. E essas todas convenções e normas, essa falta de pensar, esse ciclo repugnante através do qual vive o ser humano o faz esquecer de todas as coisas que o cercam.
Comédia: Todas as coisas são maiores do que o próprio ser! É uma perfeição, é grande! Todas as cores que enfeitiçam os olhos, os gostos que arrancam suspiros, os cheiros que capta o nariz, as texturas que fazem de tudo real, os sons graves, agudos, o vento, a liberdade, o correr, o sentir que tudo vale. O sexto sentido, que intui, que percebe, que guia! A vida, o mundo, a individualidade... é por tudo, tudo isso que cá estamos nós!
Tragédia: É por tudo, tudo isso que cá nós não devíamos estar. Os animais homo erectus são uma maldição. É um fator destrutivo que tanto destrói, tanto que chega a pulverizar sua própria vida todos os momentos. Seu habitat. Sua ambição mata, o enlouquece. O Tudo não merece um parasita, uma praga, um sistema, um livro de regras.
Comédia: Por mais que você negue, antítese minha, eu sou necessária. Mais do que necessária, eu existo, e é graças a mim que a humanidade ainda não tomou fim!
Tragédia: E por mais que você negue, paradoxo meu, eu sou necessária. Sou eu quem puxa o aprendizado, por mais duro que este seja, e é graças a mim que a humanidade vai tomar seu fim.
Comédia: O Bem. O Otimismo. Que faz parte do mundo.
Tragédia: O Mal. O Pessimismo. Que também faz parte do mundo. Tanto quanto você.
Comédia: De fato... Somos também humanas. E ambas fazemos parte de nós mesmas.
Tragédia: E é através desse conceito humano que vivemos. Um meio termo entre a comédia e a tragédia, o bem e o mal, o otimismo e o pessimismo.
[De mãos dadas, entrelaçadas, quase unidas, quase transmutando-se em siamesas, saem de cena Comédia e Tragédia].Comédia: Ó, mas que lindeza! Os pássaros estão a cantar, o Sol está a raiar, as pessoas estão a sorrir, as formigas estão a trabalhar! Ó mas como é bom mover-me, pular, me sentir viva! Que beleza é jogar um sorriso ao amigo que precisa ou ao inimigo que não precisa!
Tragédia: Não sei como pode ser tão ingênua, minha cara. Não sei como consegue sorrir quando crianças estão a morrer, o mundo está a ferver, o fim está a surgir. Com essa preguiça, com essa fome, com esse cansaço eterno, essa rotina que mata, esses dias que nunca acabam, que vão sendo vividos sem começo, nem meio e nem fim.
Comédia: Oras, mas é claro! A melhor solução é não aderir! Que não deixemos as coisas ruins de nós conta tomar, para que vejamos rabugentos em todo lugar! O brilho, a luz, a paz, os sentimentos lindos e tudo que há de mágico prevalece! E ocupa um lugar tão mais especial no coração e no olhar das pessoas que me faz querer gritar de alegria!
Tragédia: Não, não. Frívolas, maquiavélicas e egocêntricas são as pessoas. O superego e o id, juntos, superam o ego sempre que possível. Mais alto fala o autobenefício. Porque não comprar um lindo carro se eu puder? De pouco importa a eles o sofrimento do outro desde que não afete a si mesmo.
Comédia: Como é possível não ver! Relacionamento social qualquer não é mais importante do que a pureza que faz o planeta girar! Do que o caminho de bem e de paz que devemos seguir! Do que o ar puro, o céu azul, a vontade de abraçar o mundo e cuidar dele! O maior, o infinito, o algo mais que temos!
Tragédia: O coração não vê aquilo que a mente não quer que ele veja. A mente do ser humano para o dinheiro está voltada. Capazes de qualquer coisa eles são. Até mesmo de uns aos outros manipular, brincar de uma brincadeira feia chamada sociedade, que engana, que controla, que faz do corpo um robô.
Comédia: O corpo é uma maquina impressionante que a ninguém obedece! Somente aos sentimentos mais profundos da alma transparente e aos pensamentos mais sinceros de um cérebro maravilhoso! É extraordinariamente fascinante, o ser humano e tudo que ele cerca! Aprender sempre coisas novas, ó, mas que lindeza!
Tragédia: Os pensamentos mais sinceros não existem. O que são programados pra pensar, eles pensam. Seus conceitos formados são a partir de uma série de convenções por eles utilizadas. E essas todas convenções e normas, essa falta de pensar, esse ciclo repugnante através do qual vive o ser humano o faz esquecer de todas as coisas que o cercam.
Comédia: Todas as coisas são maiores do que o próprio ser! É uma perfeição, é grande! Todas as cores que enfeitiçam os olhos, os gostos que arrancam suspiros, os cheiros que capta o nariz, as texturas que fazem de tudo real, os sons graves, agudos, o vento, a liberdade, o correr, o sentir que tudo vale. O sexto sentido, que intui, que percebe, que guia! A vida, o mundo, a individualidade... é por tudo, tudo isso que cá estamos nós!
Tragédia: É por tudo, tudo isso que cá nós não devíamos estar. Os animais homo erectus são uma maldição. É um fator destrutivo que tanto destrói, tanto que chega a pulverizar sua própria vida todos os momentos. Seu habitat. Sua ambição mata, o enlouquece. O Tudo não merece um parasita, uma praga, um sistema, um livro de regras.
Comédia: Por mais que você negue, antítese minha, eu sou necessária. Mais do que necessária, eu existo, e é graças a mim que a humanidade ainda não tomou fim!
Tragédia: E por mais que você negue, paradoxo meu, eu sou necessária. Sou eu quem puxa o aprendizado, por mais duro que este seja, e é graças a mim que a humanidade vai tomar seu fim.
Comédia: O Bem. O Otimismo. Que faz parte do mundo.
Tragédia: O Mal. O Pessimismo. Que também faz parte do mundo. Tanto quanto você.
Comédia: De fato... Somos também humanas. E ambas fazemos parte de nós mesmas.
Tragédia: E é através desse conceito humano que vivemos. Um meio termo entre a comédia e a tragédia, o bem e o mal, o otimismo e o pessimismo.
sábado, 31 de maio de 2008
Obit Register/ Registro de Óbito/ Registro de Óbito
Dear Humanity,
Today I cry.
You are commiting a slow and periodic suicide and can't realize that.
You are lost and can't be found.
And the only one who can save you
Is yourself.
Querida Humanidad,
Hoy Yo lloro.
Tu estás cometendo un suicidio lento y periódico e no percebe eso.
Perdeuse e no pode avistarse.
La única que pode le salvar és
Tu misma.
Querida Humanidade,
Hoje choro.
Você está cometendo um suicídio lento e periódico e não consegue perceber.
Perdeu-se e não consegue se encontrar.
E só quem pode te salvar é
Você mesma.
Today I cry.
You are commiting a slow and periodic suicide and can't realize that.
You are lost and can't be found.
And the only one who can save you
Is yourself.
Querida Humanidad,
Hoy Yo lloro.
Tu estás cometendo un suicidio lento y periódico e no percebe eso.
Perdeuse e no pode avistarse.
La única que pode le salvar és
Tu misma.
Querida Humanidade,
Hoje choro.
Você está cometendo um suicídio lento e periódico e não consegue perceber.
Perdeu-se e não consegue se encontrar.
E só quem pode te salvar é
Você mesma.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
O meio generalizado por robôs programados pelo sistema
Você acha que realmente gosta de chocolate? Realmente?
Acorda, dorme, anda, faz, fala, age. É, você faz tudo isso. Seus anos têm 365 dias, seus meses têm 30 dias (por vezes 31), seus dias têm 24 horas e suas horas 60 minutos cada, que por sua vez são compostos por 60 segundos e estes por milésimos, até não podermos mais contar. Você tem sábados, que é quando sai pra passear e esquecer da vida, falar besteiras, relaxar. Você tem domingos, que é quando dorme o dia inteiro, assiste televisão, passa o tempo com a família ou com quem quer que seja. E você tem todas as feiras, que é quando reclama do tempo que não passa, da vida que não se ajeita, da correria da rotina dos dias turbulentos e estressantes.
Você tem seus amigos. E estes são diferentes dos amigos do seu vizinho, que são diferentes dos amigos da sua irmã. Isso todo mundo sabe. As pessoas são diferentes, certo? Errado. As pessoas são todas iguais, generalizando. O meio as faz, o meio é a sociedade. Pensam sobre o que conversam, conversam sobre o que pensam, ou não pensam. Chegam a um senso comum de como as coisas devem funcionar, do certo e errado.
Sabe, todas as pessoas do mundo usam roupas, ninguém anda por aí sem elas. Todas as pessoas do mundo são consumistas, compram, amam conforto, acima de tudo e de todos. Todas as pessoas do mundo comem comida considerada de gente, ninguém come merda. De gente. O que é considerado de gente, por todos nós.
Será possível dizer que você realmente gosta daquilo que veste, come, ouve, faz, assiste, pratica? Você gosta de comer salada pra manter sua silhueta como a das atrizes de Hollywood? Você realmente gosta daquilo que faz mal pro seu corpo? Gosta de escutar palavras quaisquer grudadas umas nas outras com um toque de qualquer coisa projetada exclusivamente pra gerar lucro e beneficiar a alguns poucos medíocres? Gosta de ver alguém sendo humilhado, alguém fazendo sexo lhe parece engraçado ou vergonhoso, gosta de ver um palhaço levar um tombo? Gosta de fazer essa faculdade de medicina na qual seu pai te pôs? Ou... Será que alguém colocou isso na sua cabeça? Você não tem opinião própria, gosto próprio, vontade própria. Você foi projetado para ser quem é antes mesmo de nascer.
Era como se fosse uma regra, uma regrinha linda, que todos devem seguir para serem incluídos. Essa regrinha tem um nome. O Sistema.
Se você quiser comer grama como fazem as vacas, e apenas isso pro resto da vida, será tachado de louco. Louco é quem não obedece ao sistema, ou parte dele.
Existir é obedecer ao Sistema. É consequência de nascer. Você nasceu no mundo, o mundo é regido pelos seres humanos, que são regidos pelo Sistema. E não há como fugir.
Livres são os doentes, os loucos, os lúcidos, os pensadores, os filósofos, os pintores, desenhistas, escritores, verdadeiros atores, que sentem, percebem, vêem tudo de maneira mais clara. São as ovelhas negras no meio de infinitas ovelhas brancas.
Não há como fugir. Apenas ignorar, conviver, pra não viver isolado, sem nunca, nunca se esquecer do controle que ele exerce sobre nós. É preferível sofrer por ser um robô a ser um robô e não sofrer.
Acorda, dorme, anda, faz, fala, age. É, você faz tudo isso. Seus anos têm 365 dias, seus meses têm 30 dias (por vezes 31), seus dias têm 24 horas e suas horas 60 minutos cada, que por sua vez são compostos por 60 segundos e estes por milésimos, até não podermos mais contar. Você tem sábados, que é quando sai pra passear e esquecer da vida, falar besteiras, relaxar. Você tem domingos, que é quando dorme o dia inteiro, assiste televisão, passa o tempo com a família ou com quem quer que seja. E você tem todas as feiras, que é quando reclama do tempo que não passa, da vida que não se ajeita, da correria da rotina dos dias turbulentos e estressantes.
Você tem seus amigos. E estes são diferentes dos amigos do seu vizinho, que são diferentes dos amigos da sua irmã. Isso todo mundo sabe. As pessoas são diferentes, certo? Errado. As pessoas são todas iguais, generalizando. O meio as faz, o meio é a sociedade. Pensam sobre o que conversam, conversam sobre o que pensam, ou não pensam. Chegam a um senso comum de como as coisas devem funcionar, do certo e errado.
Sabe, todas as pessoas do mundo usam roupas, ninguém anda por aí sem elas. Todas as pessoas do mundo são consumistas, compram, amam conforto, acima de tudo e de todos. Todas as pessoas do mundo comem comida considerada de gente, ninguém come merda. De gente. O que é considerado de gente, por todos nós.
Será possível dizer que você realmente gosta daquilo que veste, come, ouve, faz, assiste, pratica? Você gosta de comer salada pra manter sua silhueta como a das atrizes de Hollywood? Você realmente gosta daquilo que faz mal pro seu corpo? Gosta de escutar palavras quaisquer grudadas umas nas outras com um toque de qualquer coisa projetada exclusivamente pra gerar lucro e beneficiar a alguns poucos medíocres? Gosta de ver alguém sendo humilhado, alguém fazendo sexo lhe parece engraçado ou vergonhoso, gosta de ver um palhaço levar um tombo? Gosta de fazer essa faculdade de medicina na qual seu pai te pôs? Ou... Será que alguém colocou isso na sua cabeça? Você não tem opinião própria, gosto próprio, vontade própria. Você foi projetado para ser quem é antes mesmo de nascer.
Era como se fosse uma regra, uma regrinha linda, que todos devem seguir para serem incluídos. Essa regrinha tem um nome. O Sistema.
Se você quiser comer grama como fazem as vacas, e apenas isso pro resto da vida, será tachado de louco. Louco é quem não obedece ao sistema, ou parte dele.
Existir é obedecer ao Sistema. É consequência de nascer. Você nasceu no mundo, o mundo é regido pelos seres humanos, que são regidos pelo Sistema. E não há como fugir.
Livres são os doentes, os loucos, os lúcidos, os pensadores, os filósofos, os pintores, desenhistas, escritores, verdadeiros atores, que sentem, percebem, vêem tudo de maneira mais clara. São as ovelhas negras no meio de infinitas ovelhas brancas.
Não há como fugir. Apenas ignorar, conviver, pra não viver isolado, sem nunca, nunca se esquecer do controle que ele exerce sobre nós. É preferível sofrer por ser um robô a ser um robô e não sofrer.
domingo, 18 de maio de 2008
A gravidade de um outro mundo
Vamos ser francos, tio. Eu não sou muito normal, n'é. Não precisa ficar me escondendo as coisas que eu já sei. Convenhamos, as outras pessoas não ficam falando as mesmas coisas que eu.
Eu lembro direitinho de um dia que eu tava lá em casa bem entediado, sem fazer nada, desse jeito mesmo, sabe. 'Tava tão frio e tão bom... Que eu resolvi fazer alguma coisa. Peguei o meu cobertor, lá no baú dos cobertores e saí pela janela do meu quarto, que dava no telhado da casa. Nossa casa é meio afastada da cidade, n'é, daí fica bem escurinho, quase não tem luz por perto. Eu deitei lá nas telhas e fiquei olhando as constelações. É nessa hora que passa um monte de coisas na cabeça da gente, n'é tio. Quer dizer, assim, sabe... As coisas têm que ter um motivo, às vezes. A vida, assim, não pode ser um nada nada a ver com nada. Sabe, deve ter alguma razão pra eu ter vindo parar aqui, bem aqui, 'tar bem aqui conversando com você. Sei lá, n'é, tem tanta gente que fica por aí falando besteira e pensando em nada sendo que tem tanta coisa pra a gente pensar.
Aí n'é, nessas horas eu também começo a pensar na minha vida, tio. Eu não queria viver sem saber das coisas, descobrir as coisas. Mas sei lá, será que EU, logo eu, no meio de um monte de gente, vou ser quem vai conseguir saber das coisas? Porque ninguém sabe da onde a gente veio, 'né. Ninguém. E nem porque e nem pra onde vai. E nem o que fazer. Não tem manual, n'é tio, não tem. Aí as pessoas ficam querendo ser nada e não entendem as outras pessoas e ficam chorando à toa por aí. Eu não gosto muito disso não.
Quando eu 'tava contando a milésima estrela, já, minha mãe colocou a cabeça na janela e me pôs pra dentro. Eu disse pra ela que tava vendo as estrelas e pensando na vida, n'é, no universo e no cosmo. Aí ela me falou assim que ia me levar no psicólogo porque essas coisas que eu faço é coisa de doido. Daí ela marcou uma consulta pra mim aqui com o senhor. Por isso que eu vim aqui hoje, tio. Agora me diz, assim, sem esconder, eu tenho direito de saber. Qual o tamanho da gravidade da minha doença?
Eu lembro direitinho de um dia que eu tava lá em casa bem entediado, sem fazer nada, desse jeito mesmo, sabe. 'Tava tão frio e tão bom... Que eu resolvi fazer alguma coisa. Peguei o meu cobertor, lá no baú dos cobertores e saí pela janela do meu quarto, que dava no telhado da casa. Nossa casa é meio afastada da cidade, n'é, daí fica bem escurinho, quase não tem luz por perto. Eu deitei lá nas telhas e fiquei olhando as constelações. É nessa hora que passa um monte de coisas na cabeça da gente, n'é tio. Quer dizer, assim, sabe... As coisas têm que ter um motivo, às vezes. A vida, assim, não pode ser um nada nada a ver com nada. Sabe, deve ter alguma razão pra eu ter vindo parar aqui, bem aqui, 'tar bem aqui conversando com você. Sei lá, n'é, tem tanta gente que fica por aí falando besteira e pensando em nada sendo que tem tanta coisa pra a gente pensar.
Aí n'é, nessas horas eu também começo a pensar na minha vida, tio. Eu não queria viver sem saber das coisas, descobrir as coisas. Mas sei lá, será que EU, logo eu, no meio de um monte de gente, vou ser quem vai conseguir saber das coisas? Porque ninguém sabe da onde a gente veio, 'né. Ninguém. E nem porque e nem pra onde vai. E nem o que fazer. Não tem manual, n'é tio, não tem. Aí as pessoas ficam querendo ser nada e não entendem as outras pessoas e ficam chorando à toa por aí. Eu não gosto muito disso não.
Quando eu 'tava contando a milésima estrela, já, minha mãe colocou a cabeça na janela e me pôs pra dentro. Eu disse pra ela que tava vendo as estrelas e pensando na vida, n'é, no universo e no cosmo. Aí ela me falou assim que ia me levar no psicólogo porque essas coisas que eu faço é coisa de doido. Daí ela marcou uma consulta pra mim aqui com o senhor. Por isso que eu vim aqui hoje, tio. Agora me diz, assim, sem esconder, eu tenho direito de saber. Qual o tamanho da gravidade da minha doença?
domingo, 4 de maio de 2008
Nas profundezas de uma máquina
Ela não estava bem, não estava nada bem. Fez esforço para que seus músculos cansados girassem a chave da porta. Entrou cambaleando em seu apartamento, largando o salto alto em qualquer canto. Jogou a bolsa por cima do sofá na primeira oportunidade e sentou-se no chão, recostando-se na parede, aflita. Olhou pensativa por alguns momentos para seu jarro indiano. Era muito bonito, ela havia trazido da Índia em tempos remotos, onde a felicidade era facilmente encontrada, quando tudo era colorido e divertido. Sua realidade atual não era como no passado. As coisas andavam conturbadas, o tempo lhe era curto. Como se nada mais a satisfizesse, o sono sempre tomando o lugar das pequenas horas de lazer que costumava ter. Seus dias não passavam de filmes de ação em câmera lenta. O esforço era o maior motivo de sua sobrevivência. Não podia mais ler, ver filmes. Alguém acelerava o relógio durante as noites.
E era esforço não recompensado. Esforço cheio de injustiças, onde terceiros eram privilegiados. É uma lei irreparável. Sempre acontece, em todo canto, a toda hora, todo dia. É uma lei porca. Uma lei porca seguida por porcos. E não havia nada que pudesse ser feito, apenas arcar com as consequências dessa lei maligna. Além de regra, era corrente. Os terceiros privilegiados nunca, nem que quisessem, romperiam-na. O instinto do ser humano era mais forte, e o autobenefício gritava com gosto.
Seu pensamento voava longe, e a raiva apoderava-se de cada entranha de seu corpo. Era como se tudo que ela fizesse não a pertencesse mais. Era como se tudo fosse pouco, como se todos exigissem mais. Envolveu seu rosto com as mãos, a veia da testa se sobressaindo, as rugas de preocupação se mostrando. Todo o significado da vida havia desaparecido. Carpe Diem, dia após dia. Isso não existia mais. Passava diante de seus olhos. Ela era espectadora de sua própria vida. E tudo isso por causa da natureza do homem, por culpa da lei de murphy. Não era justo que outros transformassem seus dias num inferno terreno.
Chorou. Chorou por um bom tempo. Ficou uns quarenta minutos ali chorando. E então parou, finalmente, e tornou a encarar o vaso indiano. Via aquele vaso com outros olhos, depois desses quarenta minutos. O que antes era o desejo por um passado glorioso, era agora um conforto. Um conforto porque esse vaso lhe falava, agora. Ela havia sido feliz. Se certa vez foi, porque não seria novamente?
Levantou-se, pôs ambos os pés inteiramente no chão e olhou o céu estrelado pela varanda de seu apartamento. A luz das estrelas sugava seus olhos molhados. Caminhou lentamente até lá, com passos firmes e suaves. Pôs-se de pé, vendo a rua lá embaixo, tornando a erguer a cabeça e encarando as estrelas. A brisa bateu em seu rosto, ela fechou os olhos para sentir. Abriu os braços. Sentia como se pudesse voar. Sorriu. Era algo que as pessoas costumam chamar de "esperança" brotando nela novamente. A autoconfiança parecia estar entrando dentro dela, ali, naquele momento.
Então espreguiçou-se e voltou para dentro do seu apartamento, quente e aconchegante. Pegou uma água com açúcar na cozinha, ligou Elvis Presley em sua antiga vitrola e pôs-se a dançar, consigo mesma. Era hora de recomeçar. Ela veio pra este mundo. Não pode deixá-lo passar.
E era esforço não recompensado. Esforço cheio de injustiças, onde terceiros eram privilegiados. É uma lei irreparável. Sempre acontece, em todo canto, a toda hora, todo dia. É uma lei porca. Uma lei porca seguida por porcos. E não havia nada que pudesse ser feito, apenas arcar com as consequências dessa lei maligna. Além de regra, era corrente. Os terceiros privilegiados nunca, nem que quisessem, romperiam-na. O instinto do ser humano era mais forte, e o autobenefício gritava com gosto.
Seu pensamento voava longe, e a raiva apoderava-se de cada entranha de seu corpo. Era como se tudo que ela fizesse não a pertencesse mais. Era como se tudo fosse pouco, como se todos exigissem mais. Envolveu seu rosto com as mãos, a veia da testa se sobressaindo, as rugas de preocupação se mostrando. Todo o significado da vida havia desaparecido. Carpe Diem, dia após dia. Isso não existia mais. Passava diante de seus olhos. Ela era espectadora de sua própria vida. E tudo isso por causa da natureza do homem, por culpa da lei de murphy. Não era justo que outros transformassem seus dias num inferno terreno.
Chorou. Chorou por um bom tempo. Ficou uns quarenta minutos ali chorando. E então parou, finalmente, e tornou a encarar o vaso indiano. Via aquele vaso com outros olhos, depois desses quarenta minutos. O que antes era o desejo por um passado glorioso, era agora um conforto. Um conforto porque esse vaso lhe falava, agora. Ela havia sido feliz. Se certa vez foi, porque não seria novamente?
Levantou-se, pôs ambos os pés inteiramente no chão e olhou o céu estrelado pela varanda de seu apartamento. A luz das estrelas sugava seus olhos molhados. Caminhou lentamente até lá, com passos firmes e suaves. Pôs-se de pé, vendo a rua lá embaixo, tornando a erguer a cabeça e encarando as estrelas. A brisa bateu em seu rosto, ela fechou os olhos para sentir. Abriu os braços. Sentia como se pudesse voar. Sorriu. Era algo que as pessoas costumam chamar de "esperança" brotando nela novamente. A autoconfiança parecia estar entrando dentro dela, ali, naquele momento.
Então espreguiçou-se e voltou para dentro do seu apartamento, quente e aconchegante. Pegou uma água com açúcar na cozinha, ligou Elvis Presley em sua antiga vitrola e pôs-se a dançar, consigo mesma. Era hora de recomeçar. Ela veio pra este mundo. Não pode deixá-lo passar.
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