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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Óbvio

A simpatia com o tempo é tão instável. Mais que inconstante, é separada, fragmentada, seletiva. Desejar velocidade supersônica acarreta na perda dos processos, das passagens, paisagens, viagens, dos caminhos, passos, pássaros, instantes, nuances, invisível, indivisível... Imperceptível. Pela dor da humanidade ao confrontá-los. É a fuga do plano, o pleroma de contos destruidores. Sou eu, é você, nós, sumindo. É nove de julho de dois mil e dez, são dez horas e trinta e um minutos. Somos perdedores do mundo... Why don't you kill us? And... We're already dead.

Não há mundo, não há lugar, não há gente, não há conforto. Não há carinho, não há palavra, não há verdade. Nem sonho, nem compaixão, nem importância, não há importância. Não há sinestesia, anestesia, calmaria. Não há altruísmo, não há vontade. Sem ser humano, sem sinapse, sem cor, sem movimento. Onirismo, metafísica, intimismo. Não há sugestão, revolução. Não há lirismo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ontem e Hoje

Ontem parti meu crânio ao meio e me vieram com sal e vinagre tentando estancar o sangue não-coagulado. Ando por aí com a cabeça aberta, exposta, ventilando um cérebro empoeirado. Coisas voam para fora na trajetória e muita besteira acaba caindo para dentro. O sistema processa, digere, manda pela aorta, vira ao contrário e cospe boca afora, na cara de um qualquer. Tão de repente o mundo se torna nada palpável...
Todas as mãos coloridas que me seguravam para que a falta de gravidade não me levasse resolveram soltar-me. Flutuo pelo espaço, só, em meio a corpos estelares e vidas desconhecidas... Os olhos das figuras humanas em quadros e esculturas de gelo me seguem, sempre observado de longe e transmitindo um medo terrivelmente seguro, imutável. A ausência de paredes pesa como se as próprias esmagassem a arte de existir. "Não sei se estou sonhando ou se eu mesmo sou o sonho". Já não posso mais cronificar o Universo que vai sendo deixado para trás na inércia pseudônima de mim.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Prolixando

Conversas sinceras são pastosas, brancas, de um doce formigante. Quando o cansaço força uma lentidão no sistema, é o sinal do perfeccionismo batendo à porta acompanhado de sua colega, palavra abominável e indomável vontade de ser. A lua quase crescente diz "Feche os olhos, menina, para que o auto desapontamento não lhe pegue na inutilidade". A crítica fica para o atemporalismo do meu banheiro.

Acidente

Como que num dia comum, estava eu trotando pela calçada rachada da Avenida. Obliquamente notei uma borboleta atravessando a rua e o carro que, de súbito, arrancou-lhe fora as asas que lhe mantinham viva. O sopro bruto da pressão do ar despedaçou o corpo da frágil criatura, que veio ao chão, desfalecida. Era cedo, eu atravessava apressada engolindo meu café, sem jeito. Meus cabelos sobre os olhos certificavam que aquela era a faixa de pedestres. Todos os cálculos da economia regional me distraíam do mundo que girava. Setenta e sete, setenta e nove, oitenta e um... Foi o reflexo do movimento brusco involuntário do meu corpo gerado pelo barulho ensurdecedor e inesperado. Olhei e vi um monstro, e então vi o Sol caindo em mim, com toda sua desproporcional massa estelar e fogo azul anil. Fui desintegrada, voei. Resolvi, então, movido pela comoção gerada, me aproximar da morte. Digo, da morta. Seus cabelos vermelho maçã contrastavam com o cinza cimento da rua. Aquelas pernas bronzeadas que há pouco torneavam seus músculos... Ninguém... E ainda assim, alguém. Eu. O rapaz da banca de jornais era a moça borbolefeita.