quarta-feira, 22 de abril de 2009

Única verdade

Tudo começa quando começa. Para algumas pessoas, o começo é o despertar, a saída do mais próximo que jamais chegaremos de nossos vacúolos temporais.
Ludmila (todos os nomes do mundo são bonitos, basta um leve esforço pra vê-los de formas distintas, sem influências maléficas do nosso querido senso popular) abriu com suavidade seus olhos amendoados, forçando algumas remelas a se despregarem com seus cílios desprivilegiados. Alguns miados familiares. O quarto estava mal iluminado, a consciência dos afazeres e dos problemas a resolver lhe inundou, o que não a deixou nem um mínimo sequer atordoada, não a tirou de seu estado sublime. Suspirando, moveu seu corpo lentamente, fez alguns alongamentos recomendados pelo gordinho da Women's Health, levantou sem forçar a coluna vertebral. Pôs os pés no chão frio. Serena, saiu andando com completo equilíbrio e auto-controle, meio cega pela falta de luz, desviando de todos os sapatos espalhados pelo quarto afora, papeis de roteiros embaralhados por todo o cômodo, Nana e Liza, que caminhavam pacificamente com seus focinhos a farejar e rabos a balançar, atrás de algo interessante. Abriu o armário, vestiu qualquer coisa, calçou um dos sapatos largados pelo chão. Daí, o ato de glória;
Satisfeita, expondo para si mesma um singelo sorriso amargo, escancarou a janela do quarto, que ia de parede a parede, e, quase que instantaneamente, lotou o quarto antes escuro da luz pura do dia novo. Miados, uma respiração longa e profunda. Ludmila olhou corajosamente para o dia lá fora. O motor dos carros a rosnar, feio, foi sufocado por um bem-te-vi que cantava bem ali perto. As nuvens, formando complexas formas indecifráveis no céu, embelezaram essa complexidade toda com sua branqueza simples. E o ar pareceu ser a resposta mais óbvia de toda e qualquer pergunta já existente.
Deixou a janela e trotou com confiança até a cozinha, tomou um copo cheio de leite geladíssimo, sem adicionais. Fez um carinho nas gatas, beijou-as, deixou escapar um desnecessário "amo vocês" e lançou uma ultima olhadela para o apartamento.
Com um largo sorriso, saiu de casa com a única certeza que lhe consumia todos os dias. A certeza de ver aquela coisa, e de poder fazer seus chamados amores verem-na também.

domingo, 12 de abril de 2009

Pedaço

De repente, as coisas ficaram incertas. Ele ficou ali, ao lado do sinal, à espera de um olhar que lhe mostrasse a direção. Gastou quase todos os seus neurônios mentais e quase todos os seus minutos de todas as suas últimas três, quase quatro semanas. Ignorou todo o movimento dos transeuntes ao seu redor, suas vidas não lhe faziam sentido algum. Resolveu, quase que espontaneamente, sentar-se ali, bem ali na calçada dura e recém cimentada. Não ligou. Abaixou a cabeça e se auto-absorveu de novo. Sua consciência latejava. Sabia o que fazer, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de si apontava pro contrário. Segurou a cabeça com as próprias mãos e sentiu alguns chutes alheios de pessoas que passavam por ali e não reparavam na sua existência.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Undeniably

Some people are different. Some of them have awake inside things that others have asleep. I have always, since I was born, had a feeling wild and uncontrollable. An unexplainable feeling, enormous, endless. And always had a will, a wish to put it out. A wish to love, to love all days, all minutes, all the time. I look at things and don't see them with the same eyes. Out of nowhere, it came to me, and now, today, I've realized that the chance is right in front of me. You'll not suffer anymore. The world will be bad to you no longer, I'll make you feel the tree and the sun. You'll not feel mad and angry, I'll make you look at the bird, I'll make you smile for no reason at all, and you'll cry, for sadness no more, but because you find it beautiful and deep. You'll never have to be who you're not anymore, you'll be you, and nobody else. I'm willing. It's for you. My love is going for you. If I don't do it, probably no one will, for the rest of your life. I can not admit that, you can not die without have witnessed it all, it's wonders, it's magic. You're broken when your heart's not open, and I'm going to open it, because I can and because I want to. That makes me happy, and so will you. My love is yours.

Human.

terça-feira, 31 de março de 2009

Inquietação

Exausta, sentou-se na cadeira de pensar. O Sol esquentou suas pernas. Ela não tinha mais que ser borrada. O resto não deveria ser parâmetro para nenhum desenvolvimento individual. Ela não precisava olhar apenas para o próprio umbigo, podia olhar para o próprio cérebro. Havia sabedoria dentro dela para desenvolver uma manifestação, provocar manifestação nos outros inquietos que a cercavam. E não eram muitos.
O humano, programado, perdeu dentro dele mesmo o humano, e só ele mesmo pode encontrá-lo. Ela estava se encontrando. Os poucos tinham que se dobrar, e o dobro se triplicar, e o triplo se multiplicar. Ela podia dar-lhes um tapa no rosto, um tapa que os faça sentir alguma coisa, que os faça olhar ao redor. Parar, olhar, perceber, chorar, gritar, organizar, fazer, realizar, consertar. Parar, olhar, observar, sentir, absorver, sorrir, amar. O verde é de árvore, não é de cifrão. Todas as cores valem, e tudo que as acompanha.
Ela podia. Podia transformar o indivíduo, e os indivíduos, e o conjunto de indivíduos, e salvar todos os mundos deles mesmos e de todos ao seu redor. O ar está se esgotando, o tempo não para não. Ela podia acabar com o Despotismo e todos os ismos. A melancolia poderia esbanjar sua verdadeira beleza, assim como as crises de riso. Ela tinha que fazer ver que a idéia de felicidade não traz como significado a desimportância de tudo. As vidas, mágicas, desmerecidas por outras. Grandes e pequenos estão acabando com a terceira dimensão. Sua existência devia dedicar-se também à outras, e à existência daquilo que é maior.
Absorção de energia cósmica, naquele momento. Suas mãos deveriam salvar tudo aquilo cujo ser era reconhecido.
O conjunto está sendo errado, desde o momento de sua criação. "Você não o único indivíduo deste universo, e o conjunto de seres humanos não é dono dele", disse ela ao público de insetos que a assistia pensar.

terça-feira, 24 de março de 2009

Escapando pelos dedos

Os ponteiros marcam 12 horas e 53 minutos, o Sol não brilha. Longe da cama, meu corpo desgastado reclama silenciosamente, repuxando músculos aos quais eu não reconhecia existência. As palavras imersas nos livros abertos deveriam fazer sentido, mas a incoerência e os devaneios prevaleceram, me afastando por completo do mundo físico.
Havia alguns sorrisos dos quais eu não conseguia me lembrar com clareza, e isso me aborreceu. Incômodo silêncio. Aqueles determinados jeitos peculiares de andar, falar, comer, olhar, abraçar... Fugiam-me. Meus sentimentos não têm memória.
Biologia não fazia sentido, a lembrança da textura da sua pele me acalentava. Fechei os olhos, deixando os irrevogáveis paradoxos me dominarem. Introspecção oposta à saudade de corações humanos, DO coração humano.
Repentinamente, eu tinha cabelo branco. O café e os papeis diplomáticos a minha frente não tornavam o clima mais ameno, estava frio. Minhas pinturas tinham se perdido com o tempo. Não vi o Sol, não vi a grama, não vi o orvalho na manhã de domingo, não vi os olhos expressivos que me olhavam. Suddenly, I was fifty and alone.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Tentativa Culinária

Afirmação dezessete ridículo você de repente
Meu perguntei etnemlanif que tinham pois
Continuou copas querido própria
Terrível precisa Ródanon duas eles

Motivos
Revela
Oloria
Preocupava
Esfinge junto ensinar-lhes pensei
Anões pois enigma
Sem bem sob disse meus.

domingo, 8 de março de 2009

luzAzul

Há o reflexo dos Azuis no lago.

1 azul, 2 azuis, 3 azuis.
O olho do observador.
Ele observa.

10 azuis, 100 azuis, 1000, 1332 azuis.
Gira, gira, passa, passa.
Não define.

Cai o ponto no lago de cima.

Desce o azul, os azuis, ziguilhões.
Cada azul
Complexo.