sábado, 1 de janeiro de 2011

Carta de Artemis

Justine,

Escrevo-lhe apenas para lembrar-lhe. Lembrar-se é inefavelmente importante.

Felicidade excessiva é como dor de estômago, mas respirar o mundo e sentir-se ligado à terra é essencial para amar sem se perder.

Esse medo que me empurra as lágrimas e meu almoço tardio pela garganta me afasta da nobreza do espírito das partículas cósmicas; elas tentam, mas tornei-me temporariamente impenetrável. A dura epiderme endureceu desse medo transfuso em uma necessidade empática de sentir a c(d)or dos outros antes da minha. Queria passear pelo bosque de bétulas da conhecida mulher amora para enxergar através de seu corpo frágil e poderoso. O doloroso desapego viria como consequência da neve simbólica que cobriria a transfiguração do dito cujo sem enterrá-lo, mas apenas transformando-o em outra coisa que não um peso sem nome e sem pudor.
Cuidado com a vertigem.

Cuidado com o medo de si e de suas próprias palavras. Da insuficiência.

Estou há meses sem alimentar-me da minha percepção. Assim, sem caminhar compassadamente com a minha aura. Compasso é a representação do meu número um.

E você, como está?

Artemis.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Leite

"Sou muito simples. Sou quase uma caixa de leite. Não precisa nem ler os ingredientes... É só leite".

Ficar à toa vendo o dia passar é de tamanho deleite, quase uma dádiva, de tanta incomunez que chega a cheirar esquisito.
Ficar à toa todos os dias vendo-os passar é de tamanho peso, quase uma sina, de tanta agonia que chega a soar asqueroso.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Outra canção tristonha

Sou uma criança esfomeada e desnutrida cujo estômago esqueceu-se de roncar. Procuro por torneiras para abrir e deixar jorrar toda espécie de colapso que possa me fornecer a necessidade indispensável.
A continuidade do tempo é proporcional à espessura da ligação. Rompê-la por covardia é frustrante: confirma um ciclo infinito de relações mortas pela dificuldade desafiadora de mantê-las. A descoberta de mundos só seria argumento se para descobri-los não fosse necessária a junção de duas cores. Não há como usufruir simultaneamente do sentimento revigorante e da liberdade de ser sua própria, medrosa e superficial cor. Ser incompleto é uma sina.

Achei minha porta, mas sua respectiva chave não existe. "Dessa vez eu vou tentar sorrir, nem que seja só pra constatar que eu não consegui".

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sucessão

O Sonho.

Fui dormir com o dia amanhecendo, mas eram onze e tal. Os raios dum sol invisível num fim de tarde pouco provável lotaram meus olhos de luz.
De onde vem o movimento das coisas verdes?

A Consciência.

Pelo português, não levo o queijo gorgonzola a sério. Pelo masculino do nome, não consigo levar-me a sério. Intensidade pouca, não sou assim como me escrevo. Sou simples e boba, gasto meu tempo com inutilidades pouco sensíveis e depois, vendo-me no espelho como tal figura, choro pateticamente aos pés dos meus sentidos, suplicando-lhes que me sirvam. Procuro estímulo qualquer, tudo é melhor que não sentir. "Hold on to your emotions". Choro não porque sou mulher, não porque sou adolescente, e nem porque sou humana; é em pedido desesperado da verdade em mim.

O Descerrar de Olhos.

Possuo muitas coisas frágeis. Simultaneamente quero quebrá-las e zelar por elas. Estão ali, aos montes, distribuídas por estantes num quarto bem iluminado, deixando que a luz as atravesse e mostre-lhes a transparência. Um empurrão e lá se vai o feitiço irritante de sua fragilidade. Felizmente, o arco-íris do sol que as estupra me hipnotiza e certifica que devo protegê-las. São bonitas demais para desaparecer. Beleza melancólica, que provoca sorrisos sorrateiros de leveza e lágrimas repentinas de saudades diversas. Provoca também a pieguice daqueles que escrevem. "Life is happening everyday, all around".

O Erguer do Corpo.

As certezas são falhas, os motivos faltam e a cachoeira despenca violentamente na serenidade do rio colorido pelas pedras amareladas debaixo dos peixes.
Ao que os olhos negros observam com uma atenção frenética e imóvel. Os ouvidos ressoam as moléculas de água guerreando com naturalidade. A brisa tem cheiro de folhas recém-amadurecidas e desgrenha um ser vivo supra-grenhado. Já era tempo, já era espaço.

O Primeiro Pé.

Pare um pouco. Tire a bateria do seu relógio. Respire e escute a reação do seu corpo.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dor - mente

Era uma segunda-feira com jeito de domingo. Despertei de um sonho mal dormido com uma sensação borbulhante de febre e dores corporais. O almoço estava quase pronto e saco vazio não para em pé - não que eu fizesse questão de sustentar meus ossos pesados sobre forças fracas.
Limpei o envelope, esfreguei o cérebro com sabonete para peles sensíveis, a água me escorreu azul. Saí acompanhado de alguém que me transferia uma dureza útil, porém amarga e cansada. Ainda assim, acariciava-me a mão com a sua. Dicotomia engraçada.
Chegamos, encontramos um sujeito que me era conhecido e sentamos a esperar entre conversas envergonhadas e sem sentido. Nada fazia sentido.
À medida que o tempo se arrastava, meus motivos iam tentando me escapar pelas esquinas. Reclamação, impaciência, incômodo, dúvida. Ali, a única coisa que me envolvia firmemente era a angústia; o resto descia pelo ralo como a água do chuveiro que havia a pouco me lavado.
Fui, então, na súbita ausência de uma alma que me acompanha por toda a vida, chamado. Entrei, prepararam-me. Era um ritual de passagem. Sentei-me em posição fetal, e então a fragilidade do mundo modificável de uma criança para nascer me tomou por completo. Meu corpo estava sofrendo uma segunda moldagem, dessa vez presa a uma inerente e amadurecida dor. Sofri. Repeti minhas razões por efeito, conversei comigo mesmo. Senti duas mãos presenciais tocando-me, fazendo misturar-se energia humana e energia naturalmente artificial.
Sangue e suor, acabou. Levantei-me tonto e cambaleante, vi meu reflexo e sorri um sorriso de três metades: metade intrigado, metade questionador, metade aliviado. Estava agora, sob minha pele em tinta preta, a concretização da realização.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sem previsão

Podia a idéia de ferver pensamentos não fazê-los evaporar, mas a mudança de tudo que flui me obriga a lutar contra o cansaço mental e espremer meus dedos do pé até que estralem. Poetizar, aqui, equivale a um cotonete; serve para limpar. 
Nossos esquisitismos trazem a desordem para dentro de casa, desordem essa que produz um efeito acumulativo: a vontade enlouquecedora de gritar cordas vocais fora. Cordas vocais não podem ser gritadas fora nem se o grito projetado for dotado de significância - e de fato, o é. A proximidade quase miscelânea entre os sentidos, então, se manifesta, obrigando-nos a recorrer ao ser expressivo que mora debaixo de nossas camas e nos atormenta incansavelmente.
Emocionalmente deficientes e aturdidos por natureza, somos, sem exceção, direcionados à parte que mais esfola nossos joelhos: os relacionamentos supostamente amorosos intra-seres humanos, uns piores que os outros. Tem-se, daí, baldes e mais baldes repletos de uma melosidade repetitiva, incômoda e exaustiva. Tanto me desagradam as manifestações da carne e gordurinhas estomacais que delas procuro me abster. Concentro minha antena das sensações nas mil e uma outras sensibilidades que os mundos carregam.
Sou, porém, ser humano, tão humano quanto pode um ser. Escorrego na sina do elas, eles, ele e ela, nós, eu e você, vocês.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Catalepsia patológica dos pseudônimos

Há tempos procuro por palavras sinceras debaixo das minhas inúmeras xícaras de café. Prefiro transfigurar minha covardia num menininho que não consegue dormir. O tic-tac da bomba prestes a explodir o mantém acordado, preso a sua inconveniente consciência. Vê as cores de sua parede parda virando ao contrário e dançando uma valsa colombiana magistrada por um piano desconhecido que parece tocar sozinho através de sua porta. Resolve sentar-se ao chão para ouvir pelas frestas. Arrepios que lhe percorrem a alma escondem suas certezas infantis. Tenta ignorar as vozes que estão sufocando o som do passado.

Estou em casa conversando com uma ausência importante e cozinhando sentimentos afogados pelo prazer do cérebro trabalhando. Assim que tomei em mãos meu caderno vermelho, um som misturou-se à música costumeira. Apaguei-a e juntei-me à porta, quando tomei a decisão de me purificar pela honestidade. O piano, vivo, comia minha alma, degustando-a. Um grupo de vozes sinistramente serenas e palmas descompassadas iniciou um ritual que libertava meu espírito de suas atuais verdades universais. Incompletência. Vazia de sentido, cheia de significado. 
A cerimônia continuou. Algo no desconhecimento das palavras pronunciadas me causava incômodo, como que por desafio ao ofício. Por outro lado, era como um mantra que quase neutralizava meus nãos e hipnotizava meus sentidos no balanço da cortina rosa. A necessidade de sentir-me concreta era, agora, maior que a necessidade de sentir meu corpo limpo. A confiança na branquidão me garante a presença intocável dos animais. É a única que me cabe, pois não caibo na humanidade. 
Não pretendo matar meus pseudônimos sem nome.