quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Lua oposta ao Sol

Fui tomada, de repente, por um pequeno fluxo de consciência. Sempre duvidei das palavras, sempre senti falta delas como se, na verdade, nunca estivessem comigo. Eu estava andando por um longo caminho aparentemente retilíneo, cujo fim ou ausência dele eu não podia perceber. Meu corpo físico movia-se enrijecido pelo espaço, aquele lugar onde a Terra deitava, adormecida, brincando com o tempo sem se importar. Estava frio, era a falta de você. A Lua, pregada ao céu, límpida, redonda, fosca, com uma magnitude sombria e mística, transparecia uma incompetência inexplicável. As cores misturavam-se atrás dela, tornando-se uma coisa só, maleável, de uma profundidade incontestável. Oposto a ela, numa precisão assustadora, o Sol brilhava de um brilho cego, superior, infinito. A luz da manhã nunca me dá fotofobia, a sensação de uma coisa que cresce, não só no céu, mas dentro de mim, é confortante. Eu, por segundos esgotáveis, estava no centro do Universo, era ele que estava ao meu redor, estava inserida nele egocentricamente, como se minha alma e tudo que a acompanha fosse maior. Talvez seja. Nós estávamos virados de cabeça para cima. A Terra, daquele pequeno ponto sem dimensão, estava conectada a duas forças grandes demais para ela, tão grandes quanto o que prende nossos pés ao chão. A fluidez desequilibraria a situação, como é de se esperar. Viramos, e então meu caminho se inclinou e me deparei com um penhasco pelo qual deveria despencar. Continuei, sentindo algo não me deixar sofrer uma queda brusca e mortal. A Lua é transformista. Estou cercada de consciências muito mais deslumbráveis do que pequenos fios prateados que atravessam pedaços sólidos de mim, no início e no fim do dia.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Parte microscópica da problemática

Bruna sempre havia sido uma sonhadora, daqueles tipos caóticos e bonitos, que vivem a olhar as estrelas de pernas pro ar. Quer dizer, não de pernas pro ar, "o vestido vai descer!", matracava seu pai, careca e resmungão. Calça, nem pensar, menina era feita pra usar vestido, pra casar e pra aprender os pontos de costura. Afinal, "a mulher nasceu do osso torto de Adão, e alguém que nasceu de um osso torto jamais pode se endireitar", já diziam os padres metidos a sabichões. Bruna cresceu ouvindo tais barbaridades e represálias, e as tão desejadas asas de voar ficavam sempre presas em sua imaginação encantada. Liberdade era algo muito distante da realidade do mundo, e não só do mundo de Bruna, mas do mundo mesmo, aquele que gira sem parar ou que para sem que notemos. Ainda bem que gira e que é discreto em suas fugas do dever de girar. Quem sabe o movimento rotatório da Terra ou a falta de percepção da falta dele dê uma chacoalhada nas idéias ordinárias e limitadas do pai de Bruna e faça com que elas escorram-lhe pelos ouvidos e permitam-lhe, quem sabe, que deixe de separar seres humanos de demais seres humanos. Caso contrário... A vida de Bruna se tornará efêmera, triste, tudo ficará ali do lado de fora, esperando pela mente brilhante do indivíduo único e criativo que nunca virá e que se perderá na eternidade.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fio de pensamento

São infinitos pedaços de magia colorida zunindo, voando, se interligando, num só laço. Movimentos sutis, sedas intocáveis, espectros hipnotizantes. A cor é minuciosa e escrupulosamente específica, bonita por natureza. Cada uma dessas cores deve, num determinado momento de tempo e espaço, se tornar transparente e ser, por completo, parte do universo maior. Isso tudo é o Grande Esquema. Tudo, os seres vivos, as coisas, os sentidos, os momentos, cada um deles, tudo planejado, cada um dos pedaços de espectros. É o caminho. Existem contradições muito grandes num mesmo self, e isso é admirável. Quando mais árduo o caminho, maior a porcentagem de transparência adquirida. São muitos os estados, as influências.
A transparência, em todos os seus estados físicos e não-físicos, é o amor.
Essencial: ver com olhos maiores que os seus.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Caleidoscópio

Tudo é simultaneidade. Gaia é uma parte de tudo que, supostamente, existe, parte de todas as coisas fora de alcance. Dentro de um Universo infinito ou não, é uma bola de sinuca. Existem nela doses não comprimidas de surrealismo, uma grandeza imedível e mágica. Cada fragmento de alma, em seus estados profundos e mutantes, no fim fazem parte de uma mesma energia, é uma alma só. Todos os planos, lotados de especificidades inimagináveis, fazem parte. Maya existe, mas toda ela existe numa só coisa que carrega consigo lágrimas e risos, manifestações. Somos instrumento de manifestação do Universo e do que vai além dele, da coisa alguma ao ponto sem dimensão. É como uma poeira invisível, porém sensitível, que envolve a nós e tudo ao nosso redor, queira nos façamos sensitivos a ela ou não. É apenas parte, e, ao mesmo tempo, você e eu somos todas as galáxias, poeiras cósmicas e a flor rara de um lugar inexistente apenas para nossos olhos. É único e uno.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Piece

Once there was a boy who didn't exist, but had deep on his mind and heart all the dreams of trees and blue birds, growing and flying, and swimming and dieing. The cats crowled through his legs, and he didn't cry.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Diante das circunstâncias

A mistura congelante de gases de cinco da manhã fez com que eu me encolhesse por debaixo das cobertas, sem vontade alguma de deixá-las, embora uma voz próxima me anunciasse minhas obrigações. O sono inexistia, a sonolência não. Levantei atrás de uma meia para aquecer os pés.

Era tarde, parei frente aquela enorme janela, subi na beirada dela, estagnei. Nunca vi tantas cores juntas num só céu. Tonalidades e degradês brincavam com meus olhos, minhas piscadelas eram lentas e atordoadas. Os formatos caóticos das nuvens velhas e esfumaçadas davam forma à um desenho abstrato, borrado por um estojo inteiro de tintas. O tempo... O tempo ia passando sem se perder. Por fim, só coloquei uns sapatos e escovei os dentes.

A sanfona e a voz, espontâneas, a neblina que cobria a cidade inteira, o sol, o céu, o lago. Faltou-me o vestido, eu estava num sonho nunca antes sonhado. Submergi no céu, a branquidão era o tudo - ou o nada. A sensação curiosamente não amedrontante de estar próxima à queda de um penhasco infinito era constante, até o despertar. Acordei assim que o carro saiu do projeto de nuvens novas que tocam o solo.

Café com creme fresco do leite fortemente emulsionado, ligeiramente açucarado, de François; pessoas. Pequenas impressões, grandes conclusões.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Cheiro das flores da ilha

Os neurônios estão interligados, realizando rápidos e imperceptíveis, entretando essenciais movimentos sinápticos. Reações químicas, diminutas, dinâmicas. Energia sendo transportada por dentro, aparecendo por fora. Lapsos, consciência, impulsos nervosos num perigoso e frágil equilíbrio. O erronãonecessariamenteerro é facilmente difundido. Alguma coisa pode ir fatalmente mal, e essa coisa provavelmente dependerá de influências de outros tantos cérebros, cada qual com seus próprios sentidos abstratos e inconsciência indecifrável, ilocalizável e impenetrável.
Erros de alguns neurotransmissores e pontes neuroastênicas nomeados por petulantes possuintes de telencéfalos altamente desenvolvidos e polegares opositores podem ser emoldurados por nossos muitos eus-líricos. Alma refratada e refletida em múltiplas micropersonas. Interação de pós e partículas, cores, sons, pequenos movimentos contornados, num mesmo plano. Emissões, transmissões, correspondências, trocas, criações. Os estados de espírito imutáveis, excitados por outros, provocando as tais perigosas reações psicoquímicasfísicasbiológicasfilosóficas não-cientificamente comprovadas, mesmo que pareçam ser. Teoria do Caos.
Uma borboleta, que não é um ser humano, mas que, aos olhos de uma garota possuinte de um telencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor, é amarela, sobrevoa a grama supostamente verde e provoca um movimento brusco no balanço do vestido supostamente azul de sua observadora. O som do carro dirigido pelo polegar opositor de um homem qualquer, que freia ao ver a garota azul, provoca sentimentos jamais compreendidos num equivocadamente considerado mais importante ser humano que os outros que transitavam por ali, e tais sentimentos o levam a pensar. Pensamentos e faíscas neurocósmicas o fazem realizar ações não previstas em buscas de prazeres mundanos extremamente individualistas que, num outro tempo, talvez próximo e talvez distante, dilacerarão ciclos de vida e correntes sinápticas de outros seres humanos, supostos companheiros de viagem.
Em busca de objetivos contraditórios e pouco pragmáticos, irreais e inventados, os paradoxalmente possuintes de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor utilizam tais artefatos naturais para alcançar conclusões não-nobres e, por vezes, estúpidas e para fazer algo a respeito destas, esquecendo-se com provável discernimento de que outros fazem o mesmo, e que isso não funciona.
Existem coisas que não possuidores de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor também contemplam, também sentem. Sentir é a palavra. Deveria haver uma espécie de combinação simétrica entre sinapses e estes, tão ou mais importantes. As vezes desistimos de olhar pro Sol por não podermos mais enxergar todas as nossas personagens astrais, e isso é fruto de outros que fazem o mesmo com outros, e por aí deduz-se a icógnita conseguinte.
Eu e meu imaginário somos provas vivas da caoticidade concreta e mutável, admiravelmente transmutável, da natureza de uma vida. Lady Murphy, não há ninguém utilizando seus telencéfalos altamente desenvolvidos e polegares opositores para realizar menções sinápticas e combiná-las com amor, e salvar o mundo.